Bilhete Azul

Seria mais fácil se não fosse aquele drama matinal de abrir os olhos e sentir aquele vazio, o vazio que você deixou desde o dia que eu ouvi o seu primeiro “estou cansado Thais”.

Foram os três melhores anos da minha vida. Digo da minha, pois da sua, passei a duvidar desde a segunda vez que ouvi o seu “estou realmente cansado Thais”.

Você não era muito de se cansar, né? Muito menos de viver de cabeça baixa, pensativo, olhando para a janela. Você nem era de ficar calado quando eu estava do seu lado. Eu realmente precisava ter ‘diagnosticado’ essa sua patologia. Ou a minha patologia.

O fim é como se fosse uma doença. Os sintomas surgem do nada, de forma espontânea, mas de alguma forma, adormecida. E era assim que eu via o quanto você estava cansado. O quanto você vivia saindo e encontrando os calhordas dos seus amigos e me deixando de sábado em casa, sozinha.

Fazia três anos que eu havia me mudado para o Rio. De inicio para um apartamento próximo ao seu, mas eu vivia tanto ai que era mais fácil ficarmos juntos. E foi assim, de repente, como tudo que nos aconteceu.

Teve aquele dia que começamos a falar de levar as coisas mais a serio, mas você não tocou mais no assunto e eu deixei quieto. A gente sempre costumou respeitar o nosso silencio, não é mesmo? Até nossas brigas eram silenciadas de forma consciente e ambos acabavam rindo em sequencia e colocando uma musica para esvaziar a cabeça.

Três anos.

Foram três incríveis anos e indescritíveis. Mas fazer as malas e voltar para São Paulo acredito que, talvez, tenha sido uma das maiores frustrações da minha vida. E ver o olhar incrédulo da minha mãe e ter que justificar que você havia cansado era como se eu assinasse o meu óbito. Foi triste.

Na terceira vez que você disse do seu cansaço e eu tentei argumentar o “por quê?”, e você disse que as coisas aconteciam porque deviam acontecer e eu devia aceitar. Você nunca havia sido tão cruel comigo. Nem mesmo grosso ou frio. Mas você estava.

No dia que eu fiz as minhas malas para sair de casa, de novo, num espaço de tempo relativamente curto, eu queria te dizer tudo isso. Da minha incredulidade.

Talvez eu não tenha entendido que aquele teu bilhete azul era muito mais sincero do que qualquer outro sinal de fumaça que você já tenha me escrito.

O dia que você saiu de casa e eu me vi sozinha no seu apartamento, com suas coisas, eu precisava fazer alguma coisa. Eu fiz. Eu fui embora. Sem saber o “por quê?”. Sem entender por que certas coisas acontecem. Eu fiz minhas malas. Eu voltei pra São Paulo. Eu fiz minhas malas. Eu fui embora para outro país. Eu fiz minhas malas, eu me mudei de você. E deixei de morar na sua cabeça. Nos seus pensamentos.

Como a palavra cansaço tem um peso sobre mim, você não faz ideia!

2 comentários em “Bilhete Azul

  1. Things you get better, I promise to you.

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  2. Esse texto é lindo, obrigada por escrevê-lo! ❤

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