dona nair

dona Nair, uma senhora de 88 anos, tão bela e jovial, com seus cabelos brancos e sua pele enrugadinha, gosta de compartilhar histórias em uma praça há pelo menos 10 anos. 

essas histórias dos seus desamores e de seu falecido marido, Adalberto, que há anos a deixou com filhos e netos e uma família inteira para se preocupar, fazem dela uma senhora querida e que ninguém imagina que um dia pode fazer tanto pelas pessoas e pelos seus sonhos, que ao abandonar-se de suas histórias e assumir uma nova identidade, fez com que todos se surpreendessem.

dona Nair, passou a se chamar Nair aos 19 anos, quando decidiu sair de casa e adotar uma identidade que não poderia condizer com seu passado de menina sonhadora e impura. que antes mesmo de completar seus 14 anos já havia desvirginado jovens rapazes de sua cidade, para tristeza e vergonha de seus pais. 

Nair, ou Camila, para os íntimos, adotou o nome da avó pois, além de ser uma velhinha bem inteligente e perspicaz, ainda traria para si inúmeras histórias de amor. Nair, ou Camila, para os íntimos, era uma apaixonada pela vida e uma verdadeira-sutil-quase psicopata. 

saindo do interior de São Paulo e embarcando em um ônibus para a capital paulista, Nair trouxe pouquíssimas coisas na mala, como mudas de roupa; uma chinela antiga, um sapato qualquer e seu velho diário de viagem. Nair se prontificou ao fugir, de trazer todas as economias e algumas a mais que a avó deixou. trouxe documentos da velha, assumiu sua identidade dizendo que por um erro de cartório, sua data de nascimento datava anos passados. reemitiu e emitiu um som gutural ao dizer seu novo nome. 

Nair, conheceu Adalberto nos primeiros dias nessa nova cidade e ele, nunca soube com quem havia casado e nem muito menos quais histórias e quais momentos essa mulher havia carregado. seu semblante não transmitia tristeza, Nair não era uma mulher triste, era sim uma mulher apaixonada. 

formou-se em pedagogia, especializou-se em história e trabalhou por muitos anos em escolas e creches, em asilos e orfanatos, em todos os cantos da cidade que ela poderia contar suas histórias, a sua pequena grande história de vida. Nair sabia o que dizer, como dizer e o que fazer quando a encontravam na rua e a reconheciam. sempre foi a prima que se parecia com a Camila. sempre foi a pessoa que havia sido confundida com algum conhecido. sempre fora Nair, para até mesmo seus pais, que em um domingo de sol a encontraram e choraram. Nair havia mudado de identidade e assumido seu papel de forma tão teatral, que em alguns momentos esquecia seu nome e o nome de seus pais. Nair era Nair por si só.

sentada no banco da praça, Nair e sua cesta de frutas em uma cidade que crescia e deslanchava com a velocidade da luz, nunca estivera tão bem acompanhada, mesmo sozinha. Nair, cansada de suas mentiras, escrevera seu livro de histórias com a personificação de uma personagem que ela sempre quis ser e deixou para trás. Nair era sonhadora, mas era Camila e nunca mais poderia ser outra pessoa. nunca mais poderia viajar e realizar os planos de menina, que aos 14 anos desvirginava rapazes da sua cidade natal.

Nair deixou de ser quem era para dar lugar ao que as pessoas esperavam que ela fosse. Nair sorria, mas nunca fora feliz. Nair deixou de ser apaixonada. Nair, Camila, Camila, Nair… 

em alguns momentos, Nair sabe que assim como ela, tantas outras pessoas assumem identidades que não condizem com suas vontades. as pequenas insanidades do mundo moderno.

mas ser Nair não é fácil e mais difícil ainda é assumir quem você quer ser, independente do que esperam de você…

 

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