Era noite e algo me alertava, como que por milagre, que as lembranças que eram esquecidas com o mantra que eu havia adotado de “preciso esquecer”, ressurgiriam como num passe de mágica.

Havia escolhido um vestido vermelho, muito mais por conta da ocasião do que por ser minha cor favorita. O batom tentava quebrar os tons que ali se faziam, cores que se dissipariam assim que o telefone tocasse.

Em outubro, não muito distante daquela noite de natal, eu me vi chorando por uma noite ou duas, por mim e por você, e principalmente, pela dor que me causara. Cuspir sua história e sua falta de respeito, mastigar suas ideias e seus conceitos de amor, ignorar o que eu desejava por algo que fosse apenas seu e pisar, em tudo que era relacionado à mim, me fizeram chorar à beça.

Depois do qualquer baque surdo, existe uma pausa na vida que contempla a calmaria. Esse estupor que me acometera, dissipou a dor. Anestesiada pude apreciar o que estava por vir, aceitando de bom grado que tudo que havia me feito, era de responsabilidade minha e nada, nem ninguém, tiraria esse karma de mim.

Sentada embaixo da escada, mesmo com inúmeras pessoas em comemoração, me escondi no meu lugar favorito, ainda criança. Ali, poderia resgatar lembranças que me fizeram bem, até mesmo para ignorar o que eu previa.

Um toque.

No raro exercício de ligar, meu sobressalto foi eminentemente e quem estivesse por perto questionaria a euforia.

Dois toques. Três toques. Quat…

“Alô?”

Eu havia ensaiado essa conversa inúmeras vezes, em frente ao espelho e em minha mente. Seria trivial, como quem marca presença apenas para não ser esquecido, e meu receio era de não conseguir reconhecer sua voz.

“Oi…” e veio o silêncio.

Era Natal, uma das datas que mais gosto no ano desde criança, pelos presentes e na vida adulta, pela possibilidade de recomeço. Naquela noite, não havia premeditado seu ressurgimento, tampouco o silêncio que já era característico seu, mas a vida havia me ensinado que rancor e mágoa não eram sentimentos que eu adotaria, nem mesmo essa vontade de dizer algo bom que acalentasse seu coração. Amadureci.

Você desligou, provando sua covardia. E, olhando para o celular, sabia o peso que aquela decisão representava para você.

Eu não era uma cor, uma pessoa e muito menos um alguém com quem você devesse se preocupar. Eu apenas representava tudo que você quis um dia e que não pôde ter. Representava um passado e uma história que não é bonita. Não se emoldurava um crime, não se conversava com os mortos. Era errado reviver o passado.  

Era noite. Já havia voltado para a festa e abraçado meus familiares. Bebíamos e ríamos com a esperança de que tudo iria mudar. Eu não era mais a cor que eu vestia, eu era a paz que eu representava. Você era um nada, um silêncio que nunca mais eu permitiria que me causasse algo em meu espírito. A irrelevância do que você havia se tornado…

No fim, você só devia me dizer perdão, e eu, diria somente um ‘feliz natal’.

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